Capão Redondo: O olhar de quem bota a boca no trombone

Ele já fotografou todo o tipo de cena de descaso do poder público à população, principalmente da periferia: crianças brincando em meio ao lixão, equipamentos públicos deteriorados, vacas transitando pelas ruas, buracos e pontos de ônibus prestes a cair. De olhar atento e crítico, Devanir Amâncio, comerciante e presidente da ONG Educa São Paulo, é um dos leitores mais assíduos nas denúncias feitas ao DIÁRIO, com várias fotos já publicadas. Para conseguir esses flagrantes, ao mesmo tempo graves e curiosos pelas ruas de São Paulo, ele não sai de casa sem uma máquina fotográfica. Clica cerca de 20 fotos por dia.

“Procuro fazer esse trabalho para melhorar a cidade e procuro a imprensa porque é a voz da sociedade.” As imagens são registradas normalmente à tarde, quando ele sai do Capão Redondo, onde mora, e vai para a sede da ONG, no Centro. Como não dirige, anda sempre de transporte público, o que garante a ele uma visão “privilegiada” dos problemas da cidade.

Uma das primeiras imagens que registrou foi da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no Centro. “Queria mostrar que um patrimônio tão importante estava se deteriorando.”



Nunca frequentou um curso de fotografia. Quando era adolescente, prestava atenção no trabalho dos fotógrafos contratados para registrar o cotidiano e as festas do sítio da família, no distrito de Quinzópolis, em Santa Mariana (PR), onde nasceu e cresceu.

Ex-seminarista, chegou a São Paulo em 1982. Havia deixado o curso de teologia no Seminário Santo Afonso, em Aparecida (167 quilômetros da capital) e o de filosofia no Centro Universitário Salesiano, em Lorena (188 quilômetros da capital). “Fiz uma reflexão e desisti. Abandonei a faculdade por opção. Com todo respeito às ordens religiosas, achei que seria mais útil como cidadão.”

Ao contrário de muitos que se atraem pela capital, ele diz não ter vindo para ganhar dinheiro. “Vim por razões humanitárias”, justificou. Ao conhecer a realidade da cidade grande, decidiu ficar e tentar ajudar. Criou a ONG e, desde 1988, luta pela criação de bibliotecas comunitárias e já conseguiu a doação de mais de 300 mil livros para 40 espaços de leitura, como penitenciárias e escolas de samba.

Fonte: Diário de S. Paulo



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